sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Paul McCartney - Ram

Paul McCartney - Ram 
Enquanto Paul brigava na justiça contra seus ex-colegas de banda, o selo Apple colocou no mercado o novo trabalho de McCartney. O título era bem diferente e a capa idem, com Paul segurando os chifres de um de seus carneiros na sua fazenda na Escócia. A razão de ser era que Paul havia composto a grande maioria das canções enquanto tirava férias nessa propriedade rural. Então para preservar o clima em que elas foram criadas ele resolveu trazer todo o conceito para dar nome ao álbum. Por essa época Paul já tinha o projeto de formar uma nova banda mas ainda não tinha decidido como isso seria feito, assim resolveu creditar o disco como sendo de Paul e Linda McCartney.

Embora as músicas tenham sido criadas no meio rural, bem no meio do campo, Paul resolve dar uma caprichada dessa vez em termos de estúdio. Resolveu que iria gravar tudo em Nova Iorque nos estúdios da Columbia, que naquela época oferecia o que havia de melhor em termos tecnológicos. A presença de Paul em Nova Iorque aliás parece ter incomodado John que passou a soltar farpas pela imprensa contra o ex amigo dos Beatles. Embora ainda não tivesse conseguido o tão cobiçado green card que lhe dava direito de viver e trabalhar nos Estados Unidos, Lennon considerava já naquela época a cidade como seu lar definitivo. De repente ter Paul McCartney rondando por lá parece ter incomodado bastante John.

Como os processos ainda estavam todos pendentes John começou a soltar indiretas em direção a McCartney nas letras de suas próprias canções. Paul ficou surpreso mas topou a provocação e também começou a mandar sutis ataques contra Lennon. A imprensa obviamente se esbaldou ao ver aqueles dois ídolos brigando publicamente e acirrou os ânimos em relação a eles. Apesar de ter levado na esportiva por um tempo Paul começou realmente a se incomodar e resolveu terminar as gravações de Ram, levando os tapes para Londres para que recebessem a mixagem final.

Ram chegou nas lojas em maio de 1971. Logo na primeira semana mostrou-se um verdadeiro sucesso de vendas mas a crítica torceu o nariz. Os americanos principalmente não conseguiram captar direito a mensagem de Paul e desmereceram seu disco como um todo, embora sobrassem elogios para uma ou outra faixa. Paul ficou meio decepcionado com a reação fria dos especialistas, o que talvez tenha aumentado sua vontade de formar um novo grupo que iria ser os Wings. De fato esse seria o último disco de Paul assinado apenas por ele mesmo por um longo período de tempo.

Também foi um dos raros em que resolveu gravar nos Estados Unidos já que preferia mesmo trabalhar em Londres. Paul também chegou na conclusão que produzir seus discos também não era uma boa ideia pois ele gostava de trocar opiniões sobre isso enquanto estava gravando. Assim começou a sentir a falta de George Martin, o maravilhoso produtor dos Beatles. Ele queria voltar a trabalhar com Martin mais cedo ou mais tarde. Em breve ele estaria com novo grupo musical no mercado e desejava que seus discos apresentassem uma sonoridade de primeira linha, tal como os álbuns maravilhosos que gravou com os Beatles. Os fãs não perdiam por esperar...

Vamos tecer alguns comentários sobre as músicas do álbum "Ram", começando pelo antigo Lado A do vinil (para matar as saudades dos nostálgicos em geral).

Too Many People (Paul McCartney) - Em entrevista John Lennon não perdoou Paul McCartney por essa música. Na visão de Lennon a letra da canção era uma provocação direta a ele! Será mesmo? Não penso que seja tão direta assim. Na canção Paul fala sobre pessoas que perdem a grande chance de suas vidas, a "quebrando em dois", ou em outras palavras, jogando fora aquele grande lance de sorte que acaba mudando a vida de uma pessoa (no caso John). Estaria mesmo Paul falando de John dizendo que ele jogara a grande chance de sua vida (os Beatles) fora? Vai da cabeça de cada um, Lennon se convenceu que sim mas Paul sempre negou qualquer ligação entre a letra, John e o fim dos Beatles. Para ele é apenas uma boa canção e nada mais.

3 Legs (Paul McCartney) - Se a música anterior dava tanta margem para interpretações diversas o que dizer de uma canção chamada "3 Pernas"? A letra chega a ser bucólica, sob uma viés de humor negro. Paul cita seu cachorro que só tem três pernas, coitado! E de se perguntar onde entraria a querida cadela Martha no meio disso tudo! A sensação mesmo é de estar no meio da fazenda de Paul na Escócia, o que aliás é bem adequado já que ele mesmo sempre disse que essas canções foram escritas enquanto estava de férias em sua propriedade rural por lá.

Ram On (Paul McCartney) - No começo mais parece uma gravação informal, um take alternativo qualquer, mas depois Paul entra com um arranjo bem rústico mas simpático. A letra é mínima, poucos versos. Parece uma daquelas musiquinhas compostas para cantar com a família depois do almoço de domingão. Sim, divertida.

Dear Boy (Paul McCartney / Linda McCartney) - Outra canção que John Lennon levou para o lado pessoal. No caso o tal "Dear Boy" seria ele mesmo! Como? John achava que os versos "Eu acho que você nunca soube, meu caro, o que você encontrou" e "Eu espero que você nunca saiba o quanto você perdeu" eram recados diretos a ele. No caso Paul estaria dizendo a John que ele nunca conseguiu entender o quanto os Beatles significavam não apenas para eles, mas também para o mundo inteiro. Nem ele tinha consciência do que teria encontrado ao entrar nos Beatles e nem o que havia perdido ao sair do grupo. Essa letra, ao contrário da outra, faz mais sentido sob o ponto de vista de Lennon.

Uncle Albert / Admiral Halsey (Paul McCartney / Linda McCartney) - Essa faixa foi composta em "homenagem" a um tio de Paul chamado Albert. O próprio Paul relembrou ele em uma entrevista dizendo: "Tio Albert era um bom homem. Nas reuniões de família ele sempre ficava caindo de bêbado e então começava a citar trechos da bíblia - todos errados! Era muito divertido". Talvez por ser tão pessoal acabou caindo nas graças do público inglês e virou o maior sucesso do álbum na Inglaterra. No resto do mundo não teve maior repercussão, apesar de seu belo arranjo e melodia.

Smile Away (Paul McCartney) - Em minha opinião a primeira faixa realmente forte do disco, com ótimo arranjo de guitarras e uma vocalização que chega até mesmo a me lembrar do Beach Boys em seus bons tempos. Um rock de primeira, sem dúvida. A letra é até bem trabalhada para um autêntico momento rocker do disco como esse. Gosto bastante dos solos de guitarra, do vocal de Paul, de seu grupo de apoio e dos arranjos em geral. Uma beleza.

Heart of the Country (Paul McCartney) - Faixa que abria o lado B do antigo vinil. Esse lado, temos que admitir, não é tão bom quanto o lado A. Isso se deve a uma certa dificuldade por parte de Paul em arrumar melhor a estrutura do disco - algo comum em artistas que começam uma carreira solo como ele naquele momento de sua vida. Essa música tem uma melodia engraçadinha, bem bucólica, que aliás combina muito bem com o clipe, onde Paul e Linda passeiam a cavalo, namoram na praia e brincam com Martha, a famosa cadela de Paul. Não gosto muito, mas confesso que é um momento simpático (embora inofensivo) do disco.

Monkberry Moon Delight (Paul McCartney) - Paul, com vocalização visceral, tenta trazer algum interesse nessa música obscura que hoje em dia está completamente esquecida. Os arranjos circenses me lembram vagamente dos dias de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" mas claro que vai um abismo de diferença entre os dois trabalhos. O refrão se torna um pouco cansativo depois de alguns minutos (a canção é extensa, uma das mais longas do disco). Não está entre os grandes momentos do álbum.

Eat at Home (Paul McCartney) - Gosto bastante do arranjo forte dessa faixa. O dueto entre guitarras ao fundo é seu ponto de interesse. A melodia também não aborrece, pelo contrário, me soa como uma das mais agradáveis de todo o disco - principalmente pelo pegajoso refrão. Essa foi gravada em Nova Iorque e nela podemos sentir a diferença que faz uma boa produção em uma gravação. O solo de Paul também faz toda a diferença do mundo. Deu origem a um single que só foi lançado no mercado inglês em setembro de 1971. Provavelmente a melhor canção do Lado B.

Long Haired Lady (Paul McCartney) - Mais um canção que mostra Paul em busca de uma sonoridade própria, longe dos Beatles. Aqui ele destaca mais uma vez os backing vocais de Linda (algo que em excesso enche um pouco a paciência, tenho que admitir). A garota da letra inclusive é Linda, obviamente.

Ram On (Paul McCartney) - É praticamente a mesma musiquinha do Lado A, com arranjo levemente diferenciado, mas com o mesmo Paul mandando ver no ukelele. Sem maior interesse.

The Back Seat of My Car (Paul McCartney) - Paul encerra "Ram" com essa interessante canção, muito bem arranjada e produzida. Muitos não gostam, acham a faixa excessiva, com arroubos melódicos por parte dele, mas não vejo assim. Não é das minhas melodias preferidas do disco mas mantém um desenvolvimento que de certa forma me lembra de gravações que Paul faria anos depois, como por exemplo, do disco "London Town". Aqui Paul contou com a participação da filarmônica de Nova Iorque, mostrando que ele estava disposto a caprichar na faixa. "The Back Seat of My Car" inclusive foi lançada em um single promocional em agosto daquele ano. Fecha bem o disco que é marcado por apresentar realmente altos e baixos em sua seleção musical.

Ram - Paul McCartney (1971) - Paul McCartney (vocais, baixo, piano, teclados, guitarra e ukelele) / Linda McCartney (Backing vocais) / David Spinozza (guitarra) / Hugh McCracken (guitarra) / Denny Seiwell (bateria) / Heather McCartney (Backing vocais) / Marvin Stamm (flugelhorn) / New York Philharmonic / Produzido e arranjado por Paul McCartney / Data de gravação: janeiro de 1970 - janeiro, fevereiro e abril de 1971 / Data de Lançamento: maio de 1971 / Melhor posição nas charts: # 2 (Billboard EUA) e # 1 (Inglaterra).

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

John Lennon - Plastic Ono Band

John Lennon - Plastic Ono Band
O álbum “John Lennon / Plastic Ono Band” foi lançado em 11 de dezembro de 1970, pela Apple Records, em um dos momentos mais delicados e transformadores da carreira de John Lennon. Gravado ao longo de 1970, logo após o fim oficial dos Beatles, o disco nasceu em um contexto profundamente pessoal, influenciado pela terapia do “primal scream” conduzida por Arthur Janov, da qual Lennon e Yoko Ono participaram intensamente. Diferente da grandiosidade e do refinamento sonoro associados aos Beatles, o álbum adotou uma abordagem crua, minimalista e emocionalmente exposta. As gravações contaram com um trio enxuto, formado por John Lennon, Klaus Voormann no baixo e Ringo Starr na bateria, reforçando o caráter direto e sem adornos das músicas. Esse disco marcou a verdadeira estreia artística solo de Lennon, não apenas como ex-Beatle, mas como um compositor disposto a expor suas dores, traumas e contradições. Sua importância na carreira do artista reside justamente nessa ruptura radical com o passado e na afirmação de uma nova identidade musical e pessoal.

A recepção da crítica foi majoritariamente entusiástica, embora marcada por surpresa e impacto. O The New York Times descreveu o álbum como “uma confissão brutal, desprovida de qualquer tentativa de agradar”, destacando a honestidade quase desconfortável das letras. Para o jornal, Lennon havia abandonado qualquer verniz pop em favor de uma expressão emocional direta. O Los Angeles Times elogiou a coragem artística do disco, afirmando que “Plastic Ono Band é um dos raros álbuns que soam necessários, não calculados”. A crítica ressaltou a força de faixas como Mother e Working Class Hero, vistas como declarações pessoais universais. Muitos críticos apontaram que o álbum exigia do ouvinte uma escuta atenta e emocionalmente envolvida. Ainda assim, reconheciam seu valor artístico imediato. A sensação geral era de que Lennon havia criado algo profundamente autêntico.

A revista Rolling Stone publicou uma das resenhas mais emblemáticas da época, afirmando que “John Lennon / Plastic Ono Band é o melhor álbum solo já feito por um ex-Beatle”. Já a Billboard destacou o contraste entre a simplicidade instrumental e o peso emocional das composições, chamando o disco de “um manifesto íntimo e corajoso”. O The New Yorker, embora mais contido, reconheceu que Lennon havia produzido “uma obra de vulnerabilidade rara na música popular contemporânea”. Algumas críticas iniciais apontaram o álbum como excessivamente sombrio ou difícil, mas mesmo essas análises reconheciam sua força artística. Com o passar do tempo, muitos desses textos passaram a ser revisitados como exemplos de crítica musical visionária. O consenso crítico, mesmo entre opiniões divergentes, era de que o álbum representava um ponto de inflexão na música popular. Plastic Ono Band não era apenas um disco, mas uma declaração existencial.

Comercialmente, o álbum teve um desempenho sólido, embora mais modesto do que os lançamentos dos Beatles. Nos Estados Unidos, alcançou a 6ª posição na Billboard 200, enquanto no Reino Unido chegou ao 8º lugar nas paradas oficiais. Estima-se que o disco tenha vendido milhões de cópias ao longo das décadas, impulsionado principalmente por seu reconhecimento crítico e legado histórico. Embora não tenha sido um sucesso massivo imediato, o público que se conectou com o álbum o fez de maneira profunda e duradoura. Muitos ouvintes se identificaram com a franqueza emocional de Lennon e com a ausência de artifícios comerciais. O álbum também teve forte impacto entre músicos e artistas da época, o que ajudou a ampliar sua influência. Ao longo dos anos, suas vendas continuaram constantes graças a reedições e redescobertas. Assim, o sucesso comercial do disco se consolidou no longo prazo.

O legado de “John Lennon / Plastic Ono Band” é hoje considerado monumental. Frequentemente listado entre os melhores álbuns de todos os tempos por publicações especializadas, o disco é visto como uma das obras mais honestas e emocionalmente intensas da história do rock. Fãs e críticos o reconhecem como um modelo de autenticidade artística, influenciando gerações de músicos que buscaram uma abordagem mais pessoal e direta em suas composições. O álbum redefiniu o conceito de música confessional no rock, abrindo caminho para artistas que explorariam temas íntimos sem medo da exposição. Sua produção minimalista continua sendo estudada como exemplo de como menos pode ser mais. Plastic Ono Band permanece relevante justamente por sua atemporalidade emocional. É um disco que continua a dialogar com novas gerações de ouvintes.

John Lennon – John Lennon / Plastic Ono Band (1970)
Mother
Hold On
I Found Out
Working Class Hero
Isolation
Remember
Love
Well Well Well
Look at Me
God
My Mummy’s Dead

Erick Steve. 

sábado, 31 de janeiro de 2026

Elton John - Elton John (1970)

Elton John - Elton John (1970)
O primeiro álbum de estúdio de Elton John, intitulado simplesmente Elton John, foi lançado em abril de 1970 e marca o verdadeiro início de sua carreira como artista solo de relevância internacional. Embora exista um trabalho anterior (Empty Sky, de 1969), é este disco que estabelece de forma clara a identidade musical e estética de Elton John. Aqui, ele surge como um compositor maduro, sensível e sofisticado, apoiado de maneira decisiva nas letras de Bernie Taupin, seu parceiro criativo fundamental. O álbum apresenta um som que mistura piano rock, pop barroco, folk e elementos orquestrais, revelando um artista profundamente influenciado tanto pela tradição da música clássica quanto pelo rock e pelo soul contemporâneos. A interpretação vocal de Elton já demonstra intensidade emocional e grande alcance expressivo, enquanto os arranjos, frequentemente grandiosos, apontam para uma ambição artística pouco comum em discos de estreia.

Musicalmente, Elton John é um álbum introspectivo, elegante e melancólico, com canções que exploram temas como solidão, identidade, espiritualidade e conflitos emocionais. A presença marcante do piano conduz quase todas as faixas, criando uma assinatura sonora que se tornaria inseparável do nome do artista. Canções como “Your Song” — que se tornaria um de seus maiores clássicos — revelam a habilidade de unir simplicidade melódica a profundidade lírica, enquanto outras faixas mostram experimentações com estruturas longas e climas mais contemplativos. O disco foi bem recebido pela crítica e pelo público, especialmente nos Estados Unidos, e estabeleceu Elton John como uma das novas vozes mais promissoras da década de 1970. Mais do que um álbum de estreia bem-sucedido, Elton John é a fundação de uma carreira monumental, apresentando ao mundo um artista capaz de combinar sensibilidade pop, sofisticação musical e emoção genuína.

Elton John - Elton John (1970)
Your Song
I Need You to Turn To
Take Me to the Pilot
No Shoe Strings on Louise
First Episode at Hienton
Sixty Years On
Border Song
The Greatest Discovery
The Cage
The King Must Die

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

The Who - My Generation

The Who - My Generation
O primeiro álbum do The Who, lançado no Reino Unido em dezembro de 1965 com o título My Generation, é uma das estreias mais explosivas e definidoras da história do rock britânico. Surgido no auge do movimento mod, o disco captura a inquietação, a agressividade e o sentimento de ruptura de uma juventude que já não se reconhecia nos valores tradicionais do pós-guerra. Pete Townshend apresenta uma abordagem inovadora de composição, baseada em acordes de força, letras diretas e uma postura confrontacional inédita para a época. Roger Daltrey assume um papel vocal dominante e cheio de atitude, enquanto John Entwistle redefine o baixo elétrico como instrumento protagonista, com linhas melódicas ousadas e volume agressivo. Keith Moon, por sua vez, rompe completamente com o papel tradicional do baterista, tocando de forma caótica, intensa e quase anárquica, o que se tornaria uma de suas marcas registradas. O álbum soa cru, urgente e barulhento, refletindo perfeitamente a energia dos palcos londrinos em meados dos anos 1960.

Musicalmente, My Generation mistura rhythm and blues, soul americano e rock and roll, mas tudo filtrado por uma estética mais dura e acelerada. Diferente de muitos de seus contemporâneos, o The Who não buscava suavidade ou refinamento; o objetivo era impacto. As canções abordam temas como frustração juvenil, alienação social, identidade e confronto entre gerações, com letras que soavam provocativas tanto para adultos quanto para a crítica musical. A faixa-título, com seu famoso verso “hope I die before I get old”, tornou-se um verdadeiro hino geracional, condensando em poucos minutos o espírito rebelde da época. O uso do feedback, da distorção e da dinâmica agressiva antecipa elementos que mais tarde seriam fundamentais para o hard rock e o punk. Ainda que o álbum traga várias releituras de músicas de R&B, o tratamento dado pelo grupo é tão radical que essas versões soam quase como composições originais.

O impacto de My Generation foi profundo e duradouro, tanto cultural quanto musicalmente. O disco consolidou o The Who como uma das bandas mais perigosas e inovadoras do Reino Unido, conhecidos não apenas por sua música, mas também por performances destrutivas, nas quais instrumentos eram quebrados no palco como forma de expressão artística. Embora inicialmente tenha dividido opiniões da crítica, o álbum rapidamente se tornou uma referência essencial do rock dos anos 1960. Ele abriu caminho para a evolução conceitual que o grupo desenvolveria em trabalhos posteriores, como Tommy e Quadrophenia, mas já deixava claro que o The Who era uma banda disposta a desafiar limites. Mais do que um simples álbum de estreia, My Generation é um documento sonoro de rebeldia, urgência e transformação, representando o nascimento de uma nova linguagem dentro do rock.

The Who - My Generation (1965)
Out in the Street
I Don’t Mind
The Good’s Gone
La-La-La Lies
Much Too Much
My Generation
The Kids Are Alright
Please, Please, Please
It’s Not True
I’m a Man
A Legal Matter
The Ox

Erick Steve. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Bob Dylan - The Times They Are a-Changin’

O terceiro álbum de estúdio de Bob Dylan, intitulado The Times They Are a-Changin’, foi lançado em janeiro de 1964 e marca o ponto mais explícito de engajamento político e social em sua fase folk. Diferente do lirismo mais pessoal de The Freewheelin’ Bob Dylan, este disco adota um tom mais austero, direto e coletivo, refletindo as tensões sociais dos Estados Unidos no início da década de 1960. Com arranjos extremamente simples — basicamente voz, violão e, ocasionalmente, gaita — Dylan coloca o foco absoluto nas palavras, transformando suas canções em verdadeiros manifestos. O álbum dialoga diretamente com temas como desigualdade, racismo, injustiça social, guerras e mudanças geracionais, assumindo de vez o papel de cronista de seu tempo.

Musicalmente contido, The Times They Are a-Changin’ é poderoso justamente por sua sobriedade. Dylan abandona qualquer traço de leveza ou humor presente em trabalhos anteriores e apresenta composições densas, muitas vezes sombrias, inspiradas tanto na tradição do folk protesto quanto em baladas narrativas antigas. Canções como a faixa-título, “Only a Pawn in Their Game” e “The Lonesome Death of Hattie Carroll” evidenciam sua habilidade de transformar fatos históricos e questões sociais em poesia cantada, sem perder impacto emocional. Embora menos acessível ao grande público do que seus discos anteriores, o álbum consolidou Bob Dylan como uma voz central do movimento folk e como um dos principais compositores de sua geração.

Bob Dylan - The Times They Are a-Changin’ (1964)
The Times They Are a-Changin’
Ballad of Hollis Brown
With God on Our Side
One Too Many Mornings
North Country Blues
Only a Pawn in Their Game
Boots of Spanish Leather
When the Ship Comes In
The Lonesome Death of Hattie Carroll
Restless Farewell

Erick Steve. 

Led Zeppelin - Led Zeppelin II

Led Zeppelin - Led Zeppelin II
O segundo álbum do Led Zeppelin, intitulado Led Zeppelin II, foi lançado em outubro de 1969 e representa um dos momentos mais decisivos da consolidação do hard rock como força dominante no cenário musical internacional. Gravado de forma fragmentada durante turnês intensas pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, o disco carrega uma energia urgente e explosiva, refletindo a vida nômade da banda naquele período. Jimmy Page aprofunda aqui sua abordagem pesada e riff-oriented na guitarra, enquanto John Paul Jones amplia a densidade sonora com linhas de baixo marcantes e arranjos precisos. Robert Plant assume de vez a persona vocal intensa e sexualizada, e John Bonham entrega uma performance de bateria que se tornaria referência definitiva no rock pesado.

Musicalmente, Led Zeppelin II expande o blues rock apresentado no álbum de estreia, tornando-o mais agressivo, mais alto e mais ousado. O grupo mergulha com ainda mais força nas raízes do blues elétrico, mas as transforma em algo moderno e visceral, criando uma sonoridade que influenciaria gerações de bandas. Faixas como “Whole Lotta Love” e “Heartbreaker” exibem riffs icônicos, solos incendiários e experimentações sonoras — como os efeitos de estúdio e o uso criativo do panning — que eram incomuns para discos de rock da época. A produção, comandada por Jimmy Page, revela um equilíbrio raro entre crueza e sofisticação técnica.

O álbum também demonstra uma banda mais confiante em explorar diferentes climas e estruturas. Enquanto algumas músicas apostam no impacto direto e quase físico do som, outras revelam nuances mais sutis, com grooves envolventes e atmosferas psicodélicas. Essa variedade reforça a versatilidade do Led Zeppelin e mostra que o grupo não estava interessado em repetir fórmulas, mas sim em expandir os limites do rock. Mesmo sob pressão constante das gravadoras e da agenda de shows, a banda conseguiu criar um trabalho coeso, intenso e surpreendentemente bem acabado.

O impacto de Led Zeppelin II foi imediato e duradouro. O álbum alcançou o primeiro lugar nas paradas americanas e britânicas, superando até mesmo nomes consagrados da época, e consolidou definitivamente o Led Zeppelin como uma das maiores bandas do mundo. Mais do que um simples segundo disco, ele estabeleceu padrões estéticos e sonoros que moldariam o hard rock e o heavy metal nas décadas seguintes. Sua influência permanece evidente até hoje, seja na construção de riffs, na força rítmica ou na atitude desafiadora que se tornaria marca registrada do grupo.

Led Zeppelin - Led Zeppelin II (1969)
Whole Lotta Love
What Is and What Should Never Be
The Lemon Song
Thank You
Heartbreaker
Living Loving Maid (She’s Just a Woman)
Ramble On
Moby Dick
Bring It On Home

Erick Steve. 

Joan Baez - Joan Baez (1960)

Joan Baez - Joan Baez (1960)
Joan Baez, lançado em outubro de 1960, é o álbum de estreia de Joan Baez e um marco fundamental do renascimento da música folk nos Estados Unidos. Gravado quando a cantora tinha apenas 19 anos, o disco apresentou ao grande público uma voz clara, poderosa e profundamente emotiva, rapidamente associada à tradição do folk tradicional e às canções de raiz anglo-americana. Diferente de muitos lançamentos da época, o álbum apostou quase exclusivamente em voz e violão, criando uma atmosfera íntima e atemporal.

Do ponto de vista comercial, Joan Baez foi um sucesso surpreendente para um álbum de folk tradicional. O disco alcançou o 15º lugar na parada da Billboard, uma posição notável para um trabalho com repertório majoritariamente composto por canções tradicionais. As vendas se mantiveram constantes ao longo da década de 1960, impulsionadas pelo crescimento do movimento folk e pela associação de Baez com causas sociais e políticas, o que ajudou o álbum a se tornar um clássico de catálogo.

A reação da crítica foi amplamente positiva desde o lançamento. A revista Billboard destacou que Joan Baez possuía “uma voz de pureza incomum, capaz de transformar baladas antigas em algo intensamente atual”. Já o The New York Times escreveu que a jovem cantora demonstrava “uma maturidade artística rara, com um canto que parece ecoar séculos de tradição musical”, elogiando especialmente sua interpretação contida e respeitosa das canções folclóricas.

Outros jornais enfatizaram o impacto cultural do disco. O Los Angeles Times observou em 1960 que o álbum revelava “uma intérprete destinada a se tornar referência do folk americano”. A revista Sing Out!, especializada no gênero, afirmou que Baez surgia como “uma das vozes mais promissoras e autênticas do novo folk revival”, consolidando seu prestígio entre músicos e estudiosos do estilo.

Com o passar do tempo, Joan Baez passou a ser reconhecido como um dos álbuns mais importantes da história do folk moderno. Mais do que um simples disco de estreia, ele lançou as bases de uma carreira marcada pelo compromisso artístico e social, influenciando toda uma geração de músicos, incluindo Bob Dylan. O álbum permanece como um retrato puro e poderoso de uma artista no início de uma trajetória que mudaria a música popular e o ativismo cultural dos anos 1960.

Erick Steve. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

The Mamas & The Papas - If You Can Believe Your Eyes and Ears

The Mamas & The Papas - If You Can Believe Your Eyes and Ears
O primeiro álbum do grupo The Mamas & The Papas, intitulado If You Can Believe Your Eyes and Ears, foi lançado em fevereiro de 1966 e é uma das estreias mais emblemáticas da história da música pop norte-americana. Surgido no auge da efervescência cultural da Califórnia, o disco captura com perfeição o espírito da chamada West Coast, misturando folk, pop e elementos do rock com harmonias vocais exuberantes e sofisticadas. John Phillips, principal arquiteto musical do grupo, constrói arranjos vocais complexos que se entrelaçam às vozes inconfundíveis de Denny Doherty, Cass Elliot e Michelle Phillips, criando uma sonoridade calorosa, solar e ao mesmo tempo melancólica. Desde as primeiras faixas, o álbum apresenta um refinamento raro para um trabalho de estreia, refletindo tanto a experiência prévia de seus integrantes quanto a ambição artística do grupo.

Mais do que um sucesso comercial — o álbum alcançou o topo das paradas americanas —, If You Can Believe Your Eyes and Ears tornou-se um símbolo de uma geração marcada por sonhos, deslocamentos e inquietações emocionais. Canções como “California Dreamin’” e “Monday, Monday” traduzem o sentimento de busca por pertencimento e liberdade, enquanto outras faixas revelam influências claras do folk urbano e do pop sofisticado da época. O disco também se destaca pela produção elegante e pelo equilíbrio entre introspecção lírica e apelo radiofônico, ajudando a definir o som característico dos anos 1960. Como álbum de estreia, ele não apenas apresentou os Mamas & The Papas ao mundo, mas consolidou imediatamente o grupo como uma das vozes mais importantes da música popular daquela década.

The Mamas & The Papas - If You Can Believe Your Eyes and Ears (1966)
Monday, Monday
Straight Shooter
Got a Feelin’
I Call Your Name
Do You Wanna Dance
Go Where You Wanna Go
California Dreamin’
Spanish Harlem
Somebody Groovy
Hey Girl
You Baby
In Crowd

Erick Steve. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

The Byrds - Mr. Tambourine Man

The Byrds - Mr. Tambourine Man
O primeiro álbum do grupo The Byrds, intitulado Mr. Tambourine Man, lançado em junho de 1965, é uma das obras fundadoras do folk rock e um marco decisivo da música popular dos anos 1960. O disco surge no contexto da chamada “invasão britânica”, mas apresenta uma resposta tipicamente americana, unindo a poesia e a consciência lírica do folk de Bob Dylan ao brilho elétrico do rock. A sonoridade característica nasce da combinação das harmonias vocais cristalinas de Roger McGuinn, Gene Clark e David Crosby com o timbre inconfundível da guitarra Rickenbacker de 12 cordas de McGuinn, que conferiu ao álbum um clima etéreo e moderno. Desde a faixa de abertura, uma versão eletrificada de “Mr. Tambourine Man”, o grupo estabelece uma identidade própria, elegante e sofisticada, que rapidamente conquistou público e crítica.

Apesar de levar o nome de uma canção de Bob Dylan, o álbum não se limita a simples releituras. Mr. Tambourine Man apresenta um equilíbrio entre composições autorais — sobretudo de Gene Clark — e versões cuidadosamente rearranjadas de canções folk e pop. Temas como amor, alienação, juventude e introspecção aparecem com lirismo e delicadeza, refletindo o espírito de uma geração em transformação. O disco alcançou grande sucesso comercial, chegando ao topo das paradas nos Estados Unidos, e exerceu influência profunda sobre artistas e bandas posteriores, incluindo os próprios Beatles em sua fase mais folk-rock. Mais do que um álbum de estreia, Mr. Tambourine Man definiu um estilo, inaugurou uma estética sonora e consolidou os Byrds como uma das bandas mais importantes da década.

The Byrds - Mr. Tambourine Man (1965)
Mr. Tambourine Man
I’ll Feel a Whole Lot Better
Spanish Harlem Incident
You Won’t Have to Cry
Here Without You
The Bells of Rhymney
All I Really Want to Do
I Knew I’d Want You
It’s No Use
Don’t Doubt Yourself, Babe
Chimes of Freedom
We’ll Meet Again

Erick Steve. 

domingo, 18 de janeiro de 2026

The Beach Boys - Surfin' U.S.A.

The Beach Boys - Surfin' U.S.A.
Eu sou da opinião de que certos artistas são agradáveis de se ouvir porque são simples. A ideia que deu origem a eles são simples. As músicas possuem 3 ou 4 acordes. Esse é o segredo. E poucos grupos musiciais da história da música foram tão exemplificativos disso como os Beach Boys. Eles eram, no começo da carreira, apenas jovens californianos que faziam música para jovens californianos que curtiam surf e praia. Nada mais. Simples como uma prancha de surf. E é dessa fase inicial do grupo que eu gosto mais. Eu sei que eles depois tentaram evoluir como banda, fazendo projetos ousados como Pet Sounds e tudo mais. Porém nada disso me deixou muito satisfeito ao ouvir. Em se tratando de Beach Boys eu prefiro a simplicidade de sua carreira. E seus álbuns dessa primeira fase são irresistivelmente saborosos!

Esse foi o segundo disco do grupo. E seguia basicamente a sonoridade do primeiro. Uma delícia de se ouvir. E para não deixar dúvidas sosbre o que eles queriam, colocaram logo na capa um surfista surfando um grande tubo, em uma grande onda das praias da Califórnia. Assim não tinha do que se reclamar. Era puro Surf Music e nada além disso. Nada intelectual, nada pretensioso, não queriam mudar o mundo com suas músicas, não queriam passar uma mensagem política... não, nada disso. Só queriam curtir um som num dia na praia. Esse sempre foi o melhor que o Beach Boys tinha a oferecer. Uma obra musical maravilhosa de se ouvir. 

The Beach Boys - Surfin' U.S.A. (1963)
Surfin' U.S.A.
Farmer's Daughter
Misirlou
Stoked
Lonely Sea
Shut Down
Noble Surfer
Honky Tonk
Lana
Surf Jam
Let's Go Trippin'
Finders Keepers

Pablo Aluísio. 

Disco de Vinil: The Beach Boys - Surfin' U.S.A.
Surfin’ U.S.A., segundo álbum de estúdio dos The Beach Boys, foi lançado em 25 de março de 1963 e consolidou definitivamente o grupo como o principal porta-voz da cultura jovem da Califórnia. O disco aprofundou a fórmula apresentada no álbum de estreia, combinando harmonias vocais sofisticadas com letras que celebravam o surfe, os carros e o estilo de vida ensolarado da costa oeste. A faixa-título, inspirada diretamente em “Sweet Little Sixteen”, de Chuck Berry, tornou-se um verdadeiro hino juvenil da época.

Em termos comerciais, Surfin’ U.S.A. representou um enorme salto para a banda. O álbum alcançou o 2º lugar na parada da Billboard, algo notável para um grupo ainda em ascensão, e permaneceu várias semanas entre os mais vendidos nos Estados Unidos. O single “Surfin’ U.S.A.” chegou ao Top 5, impulsionando vendas que rapidamente ultrapassaram a marca de um milhão de cópias, estabelecendo os Beach Boys como concorrentes diretos dos principais nomes do rock e do pop americano do início dos anos 1960.

A reação da crítica musical foi amplamente favorável, embora ainda marcada por certo tom de surpresa diante de um grupo associado à música juvenil. O jornal Los Angeles Times descreveu o álbum como “uma explosão de entusiasmo adolescente embalada por harmonias vocais surpreendentemente elaboradas”. Já o San Francisco Chronicle destacou que os Beach Boys demonstravam “um senso melódico que vai além da música de moda, revelando um grupo com identidade própria”.

Na imprensa nacional, o disco também chamou atenção. A revista Billboard elogiou o apelo comercial do álbum, afirmando que ele “capta com precisão o espírito da juventude americana de 1963”. O New York Daily News observou que, apesar da simplicidade temática, “as vozes entrelaçadas do grupo criam um som limpo, vibrante e irresistivelmente contagiante”.

Com Surfin’ U.S.A., os Beach Boys deixaram de ser apenas uma promessa regional para se tornarem um fenômeno nacional. O álbum ajudou a definir o chamado California Sound e abriu caminho para trabalhos mais ambiciosos nos anos seguintes. Em 1963, ficou claro para público e crítica que Brian Wilson e seus parceiros estavam moldando um novo capítulo da música pop americana, equilibrando diversão, técnica vocal e um retrato idealizado da juventude da época.