sexta-feira, 6 de novembro de 2026

The Beatles - Beatles For Sale - Parte 5

The Beatles - Beatles For Sale - Parte 5
Finalizando a análise desse álbum dos Beatles, vamos tecer os últimos comentários sobre ele. Sempre que se fala em "Beatles For Sale" se afirma que foi um álbum criado meio às pressas, tentando cumprir obrigações contratuais dos Beatles com a gravadora EMI. Era necessário ter um disco novo dos Beatles nas festas de fim de ano e o grupo estava exausto por essa época. Tudo isso tem mesmo seu fundo de verdade, mas não vamos desmerecer essas gravações. Afinal se trata de um dos 13 álbuns oficiais dos Beatles em sua carreira. Sua importância jamais poderá ser subestimada. 

"I Don't Want to Spoil the Party" nunca chegou a fazer sucesso, nem na época em que o disco foi lançado e nem muito menos depois. Eu considero, por outro lado, um dos bons momentos do "Beatles For Sale". É uma composição da dupla Lennon e McCartney que de certo modo foi usada apenas para completar o disco, mas isso não tira seus méritos. Considero ela muito bem gravada e executada. E a letra, mesmo sendo simples, tenta inovar de alguma forma. 

John Lennon tinha uma personalidade bem incisiva. Isso não atraía a simpatia de todas as pessoas, muito pelo contrário. Geralmente John, com seu jeito sincero, criava muitos problemas, seja com a imprensa, seja até mesmo com outros artistas. Não foram poucos os jornalistas que o encontraram no auge da Beatlemania, dizendo depois que ele era um tanto rude. Uma característica da classe trabalhadora de Liverpool que Lennon levou para sua vida. 

Quando essas reclamações chegavam até Brian Epstein ele costumava se encontrar com John Lennon, perguntando: What You're Doing (O que você está fazendo?). John aproveitou a deixa e escreveu essa música. Para disfarçar tentou colocar os recados que mandava para Epstein no meio de uma letra que supostamente falava do amor entre dois adolescentes. Foi praticamente uma piadinha interna entre ele e seu empresário. O bom é que tudo isso resultou em mais uma boa música do disco. 

Pablo Aluísio. 

The Beatles - Beatles For Sale - Parte 4

The Beatles - Beatles For Sale - Parte 4
É curioso e interessante, mas eu sempre ouvi a canção "Baby's in Black" como uma espécie de ensaio para o que viria depois, com "Eleanor Rigby". Diria que as duas músicas são almas gêmeas, com o mesmo tipo de feeling! Sim, porque fato inegável é que essa faixa do Beatles For Sale foge mesmo da antiga fórmula das primeiras músicas dos Beatles. Pense bem. A protagonista é uma "garota de preto" cuja letra soa muito mais sombria do que poderia se imaginar. Paul McCartney, já nessa época, nessa fase primeira dos Beatles, já deixava claro que estava pronto para alcançar horizontes bem mais amplos. 

Paul costuma dizer que muitas de suas melhores músicas trazem personagens de mera ficção que ele utilizou ao longo dos anos. Nesse caso a tal garota vestida de preto seria mais uma delas, ou melhor dizendo, a primeira personagem de literatura que Paul inseria nos álbuns dos Beatles. Enfim, mostrava mesmo como Paul era diferenciado na criação de suas próprias canções. 

"Every Little Thing" não é tão inovadora como a faixa anterior, mas isso não significa que ela não seja outra bela surpresa. Eu iria além e penso que essa canção tem um sabor claramente oriental. Ela me lembra músicas criadas em um mundo antigo, em uma grande cidade de fusão cultural entre a tradição ocidental e oriental, como Constantinopla!

Veja sua marcação de ritmo, inclusive com pontuação de refrão que realmente foge do que se costumava ouvir na música pop dos anos 60. Ela tem um estilo diria até mesmo épico, por mais estranho que isso possa parecer. O vocal está com John Lennon, aqui com voz duplicada em estúdio. Enfim, uma faixa que até hoje impressiona por sua singularidade fora dos padrões. 

Pablo Aluísio. 

The Beatles - Beatles For Sale - Parte 3

The Beatles - Beatles For Sale - Parte 3
Há duas músicas de Carl Perkins nesse disco dos Beatles. "Honey Don't" é a primeira. Esse country music foi escolhido a dedo por John Lennon para ser a faixa que Ringo Starr cantaria no álbum. Como se sabe os Beatles sempre deixavam uma música para Ringo cantar nos discos oficiais do grupo. Era uma maneira de valorizar o baterista, fazendo com que ele ganhasse auto confiança em si mesmo. E o timbre de Ringo era muito adequado para esse tipo de sonoridade. Nos primeiros discos dos Beatles sempre que surgia um country no estúdio, todo mundo já sabia, essa faixa seria gravada pelo Ringo.

"Everybody's Trying to Be My Baby" foi a outra composição de Carl Perkins que os Beatles escolheram para fazer parte do disco. Carl Perkins era um artista da Sun Records, a mesma gravadora de Memphis que havia descoberto Elvis Presley e Johnny Cash, entre outros tantos pioneiros da primeira fase do rock americano. Os Beatles eram fãs dessa geração de artistas. 

Na época era bem complicado achar um disco de Perkins na Inglaterra, mas eles conheciam suas músicas, principalmente por causa do rádio. O fato de Liverpool ser um dos portos mais movimentados da Inglaterra também ajudava aos rapazes. Havia sempre algum marinheiro disposto a vender cópias de discos para eles. E assim os Beatles foram conhecendo a nata da música dos Estados Unidos.  

"Kansas City / Hey-Hey-Hey-Hey!" era outro cover do rock americano. Essa foi composta pela excelente dupla Leiber e Stoller, que escreveram alguns dos maiores sucessos da carreira de Elvis Presley. É interessante que a ideia do medley surgiu quando os Beatles estavam em turnê nos Estados Unidos. Eles iriam tocar na cidade de Kansas City e improvisaram esse número para homenagear o público dessa cidade americana. A coisa deu tanto certo, teve tão boa receptividade, que John e Paul decidiram fazer uma versão de estúdio. Ficou, como era de esperar, realmente excelente.

Pablo Aluísio. 

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Ray Charles - Hit The Road Jack

Ray Charles - Hit The Road Jack
Ray Charles era cego mas não era bobo! Ao longo de sua vida colecionou uma infinidade de namoradas, amantes, esposas e aventuras. Se a mulher bobeasse caía na conversa do Ray. Não era raro ele ter mais de um caso com suas próprias vocalistas, algumas vezes com mais de uma, e tudo debaixo do nariz da própria esposa. Para um sujeito tão galinha não era de se admirar que de vez em quando ele levasse um toco de algumas de suas garotas que ficavam fartas de suas lorotas sem fim! E foi justamente numa ocasião dessas, quando uma delas cansada da galinhagem de Ray lhe disse a gíria "Hit The Road Jack" (algo como "Caia fora Jack!") que Ray teve a brilhante ideia de gravar essa irresistível canção de autoria do bluesman Percy Mayfield. Ele acrescentou mais pimenta no caldeirão e criou uma obra prima. Embora tenha uma origem pouco nobre, o fato é que "Hit The Road Jack" é um dos maiores clássicos gravados por Charles - um sucesso estrondoso que até hoje toca nas rádios e todo mundo conhece de cor e salteado.

A letra é das mais simples, basicamente uma mulher literalmente mandando seu amante embora para nunca mais voltar e ele respondendo com cinismo e irreverência singulares - "Agora, amor, ouça, amor, não me trate assim". O mais divertido de tudo é que quando Ray Charles foi apresentar a música pela primeira vez na TV americana ele estava tendo um caso com duas de suas vocalistas e o clima de "cachorrada" na apresentação ficou mais do que claro para quem assistiu. Ray aliás se segura para não cair na gargalhada, tal o clima de nonsense que se instala. Nesse mesmo dia nos bastidores o clima esquentou e o barraco se instalou completamente nos camarins do cantor! Imagine a baixaria! Para a gravadora ABC por outro lado isso não tinha a menor importância. Eles não estavam interessados em histórias de alcova mas em lucros! Lançado em single em outubro de 1961 a canção estourou nas paradas chegando ao primeiro lugar da cobiçada lista Billboard Hot 100, a principal da indústria fonográfica americana. No lado B a também interessante "The Danger Zone". Em suma, o que temos aqui é um sucesso memorável de um dos maiores nomes da música americana. E agora, pode cair fora Jack...

Pablo Aluísio

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Chuck Berry & Bo Diddley - Two Great Guitars

Chuck Berry & Bo Diddley - Two Great Guitars (1964)
Lançado em agosto de 1964 pelo selo Checker, subsidiário da Chess Records, Two Great Guitars é um álbum especial que reúne dois dos maiores pioneiros do rock and roll: Chuck Berry e Bo Diddley. Diferentemente dos discos convencionais de rock da época, construídos em torno de uma sequência de canções curtas, o trabalho aposta principalmente em longas sessões instrumentais, nas quais os dois músicos exploram o ritmo, improvisam e demonstram suas personalidades musicais. As gravações foram realizadas em março de 1964, no Ter-Mar Recording Studio, em Chicago, cidade fundamental para o desenvolvimento do blues elétrico e do rhythm and blues. O lançamento também possui um significado particular na trajetória de Berry, pois foi seu primeiro álbum de estúdio publicado depois de sua saída da prisão, em outubro de 1963. Enquanto Chuck Berry era conhecido por seus riffs melódicos, solos ágeis e pela combinação de blues com estruturas que ajudariam a definir o rock, Bo Diddley havia desenvolvido uma identidade rítmica própria, marcada por batidas insistentes e sincopadas. O encontro dos dois, portanto, representava muito mais do que uma colaboração entre colegas de gravadora: era uma reunião de artistas que haviam ajudado a estabelecer as bases do rock moderno. 

O álbum original contém apenas quatro faixas, mas duas delas ocupam grande parte de seus aproximadamente trinta minutos de duração. A abertura, “Liverpool Drive”, é uma peça instrumental de Chuck Berry, com pouco menos de três minutos, que apresenta sua guitarra em um formato mais direto e próximo de seu estilo habitual. Em seguida vem “Chuck's Beat”, uma extensa jam instrumental de cerca de dez minutos, na qual Berry e Bo Diddley compartilham o protagonismo, acompanhados por músicos da sessão de Chicago. No segundo lado, Bo Diddley interpreta “When the Saints Go Marching In”, uma versão instrumental do tradicional tema gospel, adaptada ao seu característico senso rítmico. O encerramento fica por conta de “Bo's Beat”, uma improvisação ainda mais longa, com aproximadamente quatorze minutos, que permite explorar a interação entre os guitarristas e a seção rítmica. O disco foi produzido no ambiente profissional da Chess, sob a direção dos irmãos Leonard e Phil Chess, e também apareceu em edição estéreo. Em vez de procurar sucessos radiofônicos imediatos, a proposta era registrar o diálogo entre dois instrumentistas com estilos distintos, deixando espaço para variações, repetições, solos e mudanças de intensidade. Por essa razão, o álbum se aproxima tanto de uma sessão de blues quanto de um experimento de rock instrumental, antecipando o interesse que surgiria posteriormente por improvisações mais longas na música popular. 

A importância de Two Great Guitars está sobretudo no registro do encontro entre duas personalidades essenciais para a história da guitarra elétrica. Embora não seja normalmente considerado um dos álbuns mais acessíveis de Chuck Berry, o disco interessa especialmente aos admiradores do blues de Chicago, do rock instrumental e da evolução da improvisação na música popular. A longa duração de “Chuck's Beat” e “Bo's Beat” permite ouvir os músicos desenvolverem ideias sem a estrutura rígida de versos e refrões que caracterizava grande parte dos sucessos da época. A obra também documenta um momento de retomada para Berry, que voltaria a conquistar destaque comercial naquele mesmo ano com St. Louis to Liverpool, álbum que inclui clássicos como “No Particular Place to Go” e “You Never Can Tell”. Para Bo Diddley, a parceria reforçava sua posição como um dos grandes inovadores rítmicos do rock, cuja influência alcançaria gerações de guitarristas e bandas. Nas décadas seguintes, Two Great Guitars seria relançado em CD com faixas adicionais, ampliando o interesse dos colecionadores e permitindo conhecer outras gravações relacionadas às sessões. Seu valor histórico reside, portanto, na oportunidade de ouvir dois pioneiros em um ambiente mais livre e espontâneo, celebrando a força da guitarra elétrica e a herança musical que ambos ajudaram a construir. 

Chuck Berry & Bo Diddley – Two Great Guitars (1964)
Lista de faixas: edição original norte-americana, Checker Records:

Lado A
1. Liverpool Drive — Chuck Berry
2. Chuck's Beat — Chuck Berry e Bo Diddley
Lado B
3. When the Saints Go Marching In — Bo Diddley
4. Bo's Beat — Bo Diddley e Chuck Berry

Erick Steve. 

Chuck Berry - New Juke Box Hits

Chuck Berry - New Juke Box Hits (1961)
Lançado em março de 1961 pela gravadora Chess Records, New Juke Box Hits é o quinto álbum de estúdio de Chuck Berry e um registro importante de uma fase turbulenta de sua trajetória. No início dos anos 1960, Berry já era reconhecido como um dos principais arquitetos do rock and roll, responsável por canções que ajudaram a definir a linguagem musical e a atitude de toda uma geração. Entretanto, sua carreira começava a enfrentar dificuldades em meio a problemas judiciais que prejudicariam sua imagem pública e culminariam em sua prisão em 1962. O álbum surgiu nesse contexto, reunindo doze faixas que combinam composições próprias com releituras de músicas de outros artistas. Entre as criações de Berry estão “I'm Talking About You”, “Diploma for Two”, “Thirteen Question Method” e “The Way It Was Before”, canções que preservam sua habilidade de construir narrativas diretas, melodias cativantes e ritmos contagiantes. Embora não tenha alcançado o impacto dos discos anteriores, o trabalho mantém os elementos fundamentais de seu estilo: guitarra incisiva, vocal expressivo, humor, balanço e a mistura de blues e rhythm and blues com a energia juvenil do rock. 

Um dos aspectos mais interessantes de New Juke Box Hits é a maneira como Chuck Berry dialoga com diferentes tradições da música popular norte-americana. “Route 66”, composição de Bobby Troup que se tornou conhecida na interpretação de Nat King Cole, recebe uma leitura enérgica, conduzida pelo fraseado característico da guitarra de Berry. “Sweet Sixteen”, associada a B. B. King, aproxima o álbum do blues elétrico, enquanto “Rip It Up”, sucesso de Little Richard, reforça a conexão com o rock and roll mais explosivo da época. “Don't You Lie to Me”, por sua vez, recupera uma composição ligada ao repertório do blues, mostrando que as raízes musicais de Berry permaneciam essenciais para sua produção. A faixa “I'm Talking About You” merece destaque especial: embora não tenha se transformado em um grande sucesso comercial na época, seria posteriormente gravada pelos Rolling Stones, demonstrando a influência duradoura de seu repertório sobre o rock britânico. A recepção crítica retrospectiva foi respeitosa, mas não unanimemente entusiasmada. William Ruhlmann, do AllMusic, considera o álbum uma boa coleção de rock and roll, embora inferior aos trabalhos anteriores de Berry, observando que os problemas pessoais e judiciais do músico coincidiram com uma fase menos inspirada em termos de composição e de resultados comerciais. 

Apesar de não figurar entre os álbuns mais celebrados de Chuck Berry, New Juke Box Hits conserva valor histórico por documentar uma transição delicada em sua carreira. Pouco depois de seu lançamento, os problemas judiciais do cantor se agravaram, e ele seria preso em 1962, passando um período afastado das gravações e dos palcos. O álbum também antecede um intervalo significativo até o lançamento de seu próximo disco de estúdio composto por novas canções, St. Louis to Liverpool, em 1964, que marcaria uma retomada importante de sua carreira. Com o passar dos anos, a obra de Berry seria reconhecida como uma das bases do rock moderno, influenciando artistas e bandas de diferentes gerações, dos Beatles e Rolling Stones a inúmeros guitarristas que adotaram seus riffs, solos e seu modo de contar histórias por meio da música. Nesse panorama, New Juke Box Hits talvez não tenha a concentração de clássicos encontrada em Berry Is on Top (1959), mas oferece uma combinação interessante de material original e interpretações que revelam as fontes musicais do artista. É um disco que merece ser ouvido não como o auge de sua produção, mas como um capítulo revelador da trajetória de um compositor fundamental, cuja criatividade e influência ultrapassaram amplamente os limites de seu próprio tempo. 

Chuck Berry – New Juke Box Hits (1961)
1. I'm Talking About You
2. Diploma for Two
3. Thirteen Question Method
4. Away from You
5. Don't You Lie to Me
6. The Way It Was Before
7. Little Star
8. Route 66
9. Sweet Sixteen
10. Run Around
11. Stop and Listen
12. Rip It Up

Erick Steve. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Bill Haley and His Comets - Bill Haley's Chicks

Bill Haley and His Comets - Bill Haley's Chicks
Bill Haley's Chicks é um álbum de estúdio de Bill Haley & His Comets, lançado em 5 de janeiro de 1959 pela Decca Records. Produzido por Milt Gabler, o disco surgiu durante uma fase de transição para o rock and roll, quando os pioneiros do gênero procuravam manter sua popularidade diante de mudanças no gosto do público e da ascensão de novos artistas. O álbum foi concebido em torno de um tema bastante particular: todas as canções fazem referência a mulheres, seja por meio de nomes femininos, personagens ou histórias românticas. Essa proposta deu origem a uma coleção que mistura rock and roll, rhythm and blues, jazz tradicional e versões de standards populares. Entre as faixas mais importantes está “Skinny Minnie”, uma gravação energética que se tornou um dos sucessos do grupo em 1958 e ajudou a preparar o terreno para o lançamento do álbum. O repertório também inclui “Whoa Mabel!”, “Eloise”, “Mary, Mary Lou” e “B.B. Betty”, composições que mantêm o humor, o ritmo acelerado e a linguagem informal característicos de Bill Haley. Ao lado dessas músicas aparecem interpretações de clássicos como “Dinah”, “Sweet Sue, Just You”, “Charmaine” e “Marie”. Essa combinação de material original e canções conhecidas demonstra a intenção de Haley e de seu produtor de atualizar repertórios anteriores por meio da energia rítmica dos Comets. 

O principal destaque comercial do álbum foi “Skinny Minnie”, lançada como single em 1958 e responsável por manter Bill Haley & His Comets em evidência no mercado americano. A música alcançou a 22ª posição na parada de singles da Billboard e a 25ª na Cashbox, demonstrando que o grupo ainda conseguia produzir sucessos depois do auge de “Rock Around the Clock”, “Shake, Rattle and Roll” e “See You Later, Alligator”. Outra faixa relacionada a esse período foi “Lean Jean”, que também apareceu nas paradas, chegando à 52ª posição na Cashbox. O álbum, entretanto, não alcançou o mesmo impacto comercial dos grandes lançamentos anteriores da banda, e não há evidências de que tenha se tornado um sucesso expressivo nas paradas de álbuns. A crítica especializada da época dedicou menos atenção ao disco do que aos primeiros trabalhos revolucionários do grupo, mas sua proposta temática e a mistura de composições próprias com standards ajudam a compreender a estratégia musical de Milt Gabler. A formação reunida nas gravações incluía Bill Haley nos vocais e guitarra rítmica, Franny Beecher na guitarra solo, Billy Williamson na guitarra de aço, Johnny Grande no piano, Al Rex no baixo, Ralph Jones na bateria e Rudy Pompilli no saxofone. Essa equipe proporcionava à banda uma sonoridade reconhecível, com ritmo marcado, solos instrumentais e vocais descontraídos. Embora Bill Haley's Chicks não tenha redefinido o gênero, preservou a capacidade dos Comets de combinar o rock and roll com elementos de estilos anteriores da música popular americana. 

Atualmente, Bill Haley's Chicks é lembrado principalmente por representar uma etapa específica da discografia dos Comets, quando o rock and roll já havia conquistado o mercado, mas começava a se transformar rapidamente. O álbum permite observar como Bill Haley procurou ampliar seu repertório sem abandonar a fórmula que havia ajudado a popularizar o gênero: guitarras elétricas, saxofone, piano, contrabaixo e bateria trabalhando em conjunto com melodias simples e refrões memoráveis. “Skinny Minnie” continua sendo a faixa mais conhecida da coleção e uma das gravações importantes da fase final da banda na década de 1950. “B.B. Betty” também chama a atenção por apresentar Billy Williamson nos vocais principais, uma escolha pouco habitual que demonstra a participação dos outros integrantes na identidade musical do grupo. Já “Ida, Sweet as Apple Cider”, “Charmaine” e “Marie” revelam o interesse em reaproveitar canções de épocas anteriores, transformando-as em interpretações adequadas ao público jovem. O disco antecedeu Strictly Instrumental, lançado no final de 1959, e encerrou uma sequência de álbuns temáticos que incluía Rockin' the Oldies e Rockin' Around the World. Embora tenha ficado à sombra dos trabalhos mais famosos de Bill Haley, Bill Haley's Chicks conserva valor histórico para colecionadores e admiradores do rock clássico. É um retrato de uma banda experiente tentando acompanhar a evolução do mercado musical e, ao mesmo tempo, preservar o espírito irreverente que ajudou a transformar o rock and roll em um fenômeno internacional. 

Bill Haley and His Comets - Bill Haley's Chicks (1959)
1. Whoa Mabel!
2. Ida, Sweet as Apple Cider
3. Eloise
4. Dinah
5. Skinny Minnie
6. Mary, Mary Lou
7. Sweet Sue, Just You
8. B.B. Betty
9. Charmaine
10. Corrine, Corrina
11. Marie
12. Lean Jean 
    
Erick Steve. 

Bill Haley and His Comets - Strictly Instrumental

Bill Haley and His Comets - Strictly Instrumental 
Strictly Instrumental é um álbum de estúdio de Bill Haley & His Comets, lançado em 14 de dezembro de 1959 pela gravadora Decca Records. O disco ocupa uma posição curiosa na discografia do grupo: foi o último álbum de material inédito gravado pela banda para a Decca durante sua primeira fase de sucesso e apresentou uma proposta diferente daquela que havia consagrado Bill Haley como um dos pioneiros do rock and roll. Como o próprio título sugere, o repertório é essencialmente instrumental, privilegiando os arranjos da banda, a guitarra elétrica, o saxofone, o piano e a seção rítmica, em vez dos vocais característicos de Haley. As gravações foram realizadas em diferentes sessões entre junho de 1958 e setembro de 1959, em Nova York, e reunidas sob a produção de Milt Gabler, colaborador fundamental do cantor durante seus anos na gravadora. A formação dos Comets incluía músicos experientes como Franny Beecher na guitarra solo, Billy Williamson na guitarra havaiana, Johnny Grande no piano, Rudy Pompilli no saxofone tenor e Ralph Jones na bateria. Bill Haley também participou das gravações, embora sua presença instrumental nem sempre fosse evidente para os ouvintes. O resultado foi um álbum que combinava rock and roll, música instrumental popular e influências de ritmos internacionais, refletindo uma época em que o mercado fonográfico explorava diferentes caminhos para manter a popularidade dos artistas pioneiros do gênero. 

A recepção comercial do álbum esteve ligada principalmente ao sucesso de algumas faixas lançadas como singles. “Joey's Song”, composição de Joe Reisman, tornou-se o maior destaque do repertório, alcançando a 46ª posição na parada da Billboard e a 35ª colocação na Cashbox, além de chegar ao primeiro lugar na Austrália durante oito semanas, entre dezembro de 1959 e janeiro de 1960. A música demonstrou que Bill Haley & His Comets ainda conseguiam conquistar o público mesmo sem depender dos vocais de seu líder. Outro destaque foi “Skokiaan”, instrumental baseado em uma composição de August Musarurwa, músico do Zimbábue, que havia ganhado popularidade internacional na década de 1950. A gravação dos Comets ajudou a levar esse tema a um público ainda maior na América do Norte. O álbum também trouxe versões instrumentais de canções conhecidas, como “Mack the Knife” e “Music! Music! Music!”, além de composições originais dos integrantes, entre elas “Two Shadows”, “Shaky” e “The Catwalk”. Apesar desses resultados, o cenário musical estava mudando rapidamente: o rock and roll dos primeiros anos da década enfrentava novas tendências, e o mercado começava a privilegiar outros artistas e estilos. O produtor Milt Gabler considerava que a sonoridade instrumental do disco poderia atrair ouvintes mais velhos, interessados em música de entretenimento orquestral. Assim, Strictly Instrumental representou também uma tentativa de adaptar a banda a um mercado em transformação, embora não tenha recuperado o impacto dos grandes sucessos de meados da década. 

Com o passar do tempo, Strictly Instrumental passou a ser reconhecido como um registro peculiar, mas significativo, da fase final de Bill Haley & His Comets na Decca. Sua importância histórica reside, em parte, no fato de documentar uma banda que procurava explorar a versatilidade de seus músicos para além do formato tradicional de canções de rock and roll com vocais. A guitarra de Franny Beecher, o saxofone de Rudy Pompilli e o piano de Johnny Grande assumem maior protagonismo, revelando a qualidade instrumental dos Comets. “Joey's Song” continua sendo a faixa mais associada ao álbum por seu desempenho comercial, enquanto “Shaky” e “The Catwalk” oferecem exemplos das composições criadas pelos próprios integrantes. Embora o disco seja predominantemente instrumental, “Chiquita Linda (Un Poquito de tu Amor)” apresenta breves vocais coletivos, uma pequena exceção à proposta sugerida pelo título. O álbum foi o último lançamento de material novo dos Comets pela Decca antes da mudança para a Warner Bros. Records, em 1960, encerrando uma etapa importante da parceria entre Haley e Gabler. A crítica retrospectiva tem opiniões variadas sobre o resultado: alguns ouvintes valorizam a leveza e a competência instrumental das gravações, enquanto outros consideram que o conjunto não possui a energia revolucionária dos clássicos anteriores da banda. Ainda assim, Strictly Instrumental oferece uma perspectiva interessante sobre a evolução do grupo no final dos anos 1950 e sobre as tentativas de Bill Haley de permanecer relevante depois da primeira grande explosão do rock and roll. 

Bill Haley & His Comets - Strictly Instrumental (1959)
1. Joey's Song
2. (Put Another Nickel In) Music! Music! Music!
3. Mack the Knife
4. In a Little Spanish Town
5. Two Shadows
6. Shaky
7. Strictly Instrumental
8. Skokiaan
9. Puerto Rican Peddler
10. Drowsy Waters
11. Chiquita Linda (Un Poquito de tu Amor)
12. The Catwalk 
  
Erick Steve.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Dean Martin - Collected Cool

Dean Martin - Collected Cool
Está sendo lançado nos EUA e Europa um box maravilhoso com 3 CDs e 1 DVD enfocando os melhores anos da carreira de Dean Martin. Uma verdadeira preciosidade. Tudo de extremo bom gosto acompanhado de um maravilhoso livreto informativo com muitas fotos fantásticas e informações preciosas. Para quem é fã do Dino é realmente um dos melhores lançamentos atuais sobre o artista. Quem acompanha meus textos sabe que eu sempre prezo pela discografia oficial lançada ainda quando o cantor estava vivo. Nesse aspecto tudo me atrai, o vinil original, as capas com direções de arte que refletem as tendências artísticas que estavam na moda no ano em que o disco foi lançado e todo aquele sabor nostálgico que geralmente acompanha esse tipo de material. Infelizmente nem todos os grandes cantores do passado tem sua discografia original relançada em novos formatos, o que dificulta muito chegar nos produtos originais. É o caso de Dean Martin cujo legado ficou esquecido durante muito tempo.

Por isso vou aqui elogiar esse box. É obviamente uma coletânea de seus maiores sucessos mas também traz material inédito, o que por si só já é motivo para comemorar. Praticamente todas as faixas foram remasterizadas digitalmente, procurando trazer as gravações para um padrão de qualidade aceitável na atualidade. O trabalho ficou magnífico – basta comparar até mesmo com os últimos CDs lançados de Martin no mercado há cinco ou dois anos. A diferença é realmente marcante. A lamentar apenas a exclusão de muitas gravações excelentes de Martin na fase em que trabalhou na gravadora de seu amigo Frank Sinatra, a Reprise Records. Ao que parece (nada é confirmado oficialmente) há uma disputa judicial sobre os direitos dessas músicas. De qualquer maneira momentos como “Everybody Loves Somebody” acompanhada de um lindo arranjo de quarteto de cordas faz tudo valer a pena. A gravação é deslumbrante! O terceiro CD traz várias gravações ao vivo de Dean Martin em Lake Tahoe e o DVD traz a histórica apresentação de Dean Martin em Londres no mitológico The Apollo Victoria Theatre. Em suma, um trabalho de resgate com muito bom gosto e elegância. Coisa fina.

Dean Martin Collected Cool (2013)
CD 1 - Dean's Spoken Word Introductions / My Own, My Only, My All / Powder Your / Face With Sunshine (Smile! Smile! Smile!) / I Don't Care If The Sun Don't Shine / That's Amore / If I Could Sing Like Bing / Sway / Long, Long Ago / Memories Are Made Of This / Pardners / Volare / Rio Bravo / On An Evening In Roma / Sleep Warm / Ain't That A Kick In The Head / Just In Time / Arrivederci Roma / Return To Me / A Hundred Years From Today / CD 2 - Tik-A-Tee, Tik-A-Tay / Senza Fine / Who's Got The Action? / Guys And Dolls / Marina / Everybody Loves Somebody / The Door Is Still Open (To My Heart) / You're Nobody 'Til Somebody Loves You / In The Misty Moonlight / Sophia /  Send Me The Pillow You Dream On / In The Chapel In The Moonlight / Welcome To My World / Houston / I Will / Somewhere There's A Someone / My First Country Song / LA Is My Home / CD 3 - Drink To Me Only With Thine Eyes / Almost Like Being In Love / I Love Tahoe (Paris) / My Kind Of Girl / Break It To Me Gently / Rock-A-Bye Your Baby With A Dixie Melody / Primrose Lane / You Are Too Beautiful / Carolina In The Morning / Love Walked In/ I Love Being A Girl / Beautiful Dreamer / You Made Me Love You / It Had To Be You / Nevertheless / I'm Gonna Sit Right Down And Write Myself A Letter / Volare / On An Evening In Roma / I Love Paris.

Pablo Aluísio. 

Dean Martin - Memories Are Made Of This

Dean Martin - Memories Are Made Of This
Em plena explosão do rock americano em meados dos anos 50, eis que surge nas paradas um grande sucesso romântico cantado por Dean Martin. A bonita e singela "Memories Are Made Of This" acabou derrubando vários roqueiros das primeiras posições, chegando ao número 1, ficando por lá por cinco semanas! Um feito e tanto! Dean Martin conseguiu inúmeras vezes essa proeza. É bem lembrado que foi ele também quem derrubou os Beatles do Top 1 em 1964 com sua "Everybody Loves Somebody", o que fez com que tirasse uma enorme onda com esse feito! Em pleno auge da Beatlemania lá estava o velho e bom Dean Martin ocupando seu espaço. Pois é, Dean Martin era realmente bom de vendas no mercado de singles.

Essa canção tem um swing bem peculiar, poderia inclusive ter feito parte de qualquer disco de Frank Sinatra. Aliás falando em comparações é interessante dizer que Martin não tinha uma voz mais bonita do que a de Sinatra, porém era bem mais forte e impressionante. Frank Sinatra em termos de voz ganhava em beleza, ao que Dean Martin o superava em potência e poderio vocal. Um detalhe sobre essa canção que poucos sabem é que a primeira versão a sair em disco nos Estados Unidos foi gravada pela orquestra de Ray Conniff. Essa primeira gravação tem uma suntuosidade que Martin dispensou em sua versão, já que ele procurava criar um clima de intimidade, romantismo. Já o maestro Ray procurava pela explosão sonora. Outro fato interessante para os fãs do cantor: com o sucesso do single a gravadora Capitol lançou um EP com mais duas faixas, que também venderam muito bem. Então é isso. Entre os grandes sucessos musicais da parada da Billboard de 1956 lá estava o romântico Dean Martin se sobressaindo entre um oceano de roqueiros rebeldes. O romantismo sempre se faz presente, não importando o momento.

Dean Martin - Memories Are Made Of This (1956)
Memories Are Made Of This 
Change of Heart 
I Like Them All (EP)
Ridin Into Love (EP).

Pablo Aluísio.