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sexta-feira, 12 de junho de 2026

The Doors - The Soft Parade

The Doors - The Soft Parade 
Na segunda metade dos anos 60 os Beatles lançaram um disco que abalou o mundo da música: "Sgt.Pepper's Lonely Hearts Club Band", já ouviu falar? Se sua resposta for não, então você é definitivamente um tapado em termos de Rock'n'Roll. O Rock, antes considerado uma arte menor, ganhou status de arte maior com esse trabalho, levando todos, inclusive os mais conceituados críticos musicais a ouvirem esse marco da história mundial. Criou-se assim, pela primeira vez, o conceito de grande arte ao mais popular gênero musical do planeta. De uma hora para outra todas as bandas de rock do mundo se sentiram desafiadas a aprimorar e tentar, se não a superar, ao menos se igualar ao revolucionário disco do grupo inglês.

Os Doors, principalmente Krieger e Manzarek, chegaram a conclusão que deveriam enriquecer seu próximo disco com orquestrações e arranjos mais bem elaborados. Então o grupo se trancou em estúdio e durante mais de um ano tentou todas as combinações e experimentos possíveis. O estúdio gastou uma fortuna, todo mundo ficou esgotado, principalmente Jim que não gostava de super produções. Gravado em oito canais entre novembro de 1968 e junho de 1969, no Elektra Sound Studios (Hollywood, CA) o disco só foi lançado oficialmente nos EUA no dia 18 de julho de 1969. Novamente o grupo foi produzido por Paul A. Rothchild. The Soft Parade foi o disco dos Doors que teve a mais longa e cara produção. Foi lançado em julho de 1969 (depois de quase um ano de preparo), mas não foi bem acolhido pela crítica, talvez motivado pelo escandaloso show de Miami, ocorrido poucos meses antes.

O público também estranhou o resultado, dizendo que a banda não era mais a mesma, que havia se vendido. Mas a verdade é que esse é realmente um disco bem diferente do que os Doors já haviam lançado anteriormente, com arranjos orquestrados e repletos de instrumentos estranhos à banda, como trombone, conga e violino (que aparecem logo na espalhafatosa introdução de Tell All the People). Além disso, uma outra voz é ouvida, já que o guitarrista Robby Krieger canta o refrão da canção Runnin' Blue. Um outro detalhe intrigou os fãs: a autoria das canções, antes creditadas a todos os integrantes, dessa vez era dividida entre Morrison e Krieger. Estariam os Doors passando por uma crise interna? Não era possível dizer. Mas logo o episódio de Miami foi (parcialmente) esquecido e o single "Touch Me" invadiu as rádios e elevou as vendas dos álbum, que se tornou mais um sucesso. Singles nas Lojas : Touch me / Wild child - Em dezembro de 1968 a banda lançou o primeiro single deste disco, aliás o primeiro de quatro, o que foi um recorde para o grupo.

O lado A trazia "Touch Me". Quem ouviu já sacou: Jim estava levemente embriagado quando gravou essa faixa, mas tudo acabou dando um toque especial a música. Outro dado: esta canção é na verdade, uma mistura de muitos takes diferentes, por isso se nota também uma certa diferenciação no vocal de Jim ao longo da canção. "Wild child" é um boa canção, principalmente pela introdução envenenada da guitarra de Krieger e mais uma vez Jim aparece com seu estilo vocal dúbio, de quem acabou de sair de um bar. Em suma: Blues etílico.

Wishful, Sinful / Who scared you? - Em fevereiro de 69, os Doors lançam um novo single, deixando todo mundo surpreendido. "Wishful, Sinful" é uma balada triste, puxada para blues (mais uma vez!). O grande problema dessa canção e das outras do disco, é que há tantos instrumentos ao mesmo tempo que a voz de Jim acabou ficando ofuscada, sendo afogada numa verdadeira overdose musical. No Lado B do compacto foi colocada uma canção fraquinha que acabou não entrando no disco, "Who scared you?" é tudo o que um lado B é: totalmente descartável. Tell all the people / Easy ride - Tá legal, todo mundo fala mal de "Tell all the people", mas absolutamente não concordo com esse tipo de opinião. Gosto muito da canção, aliás a considero a melhor de todo o disco. De todas é a que apresenta a melhor harmonia entre a orquestra. Além disso Jim está em ótima fase vocal, tudo aliado a bonita melodia. Nota 10! "Easy ride" é uma música rápida que cola na sua mente com força. Facilmente assobiável e tudo o mais, ela também é um ótimo momento do disco, por isso dos quatro singles extraídos do disco, este é disparado o melhor de todos.

Running Blue / Do it - Mas quem diabos é este que canta com Jim durante "Running blue"? Ora é Robbie, que como vocalista é um ótimo guitarrista! Essa foi a única vez que Jim dividiu o microfone com alguém da banda (graças a Deus!). Talvez a existência desse quarto single (um exagero!) tenha sido uma forma de homenagear o guitarrista e compositor da banda. Mas sinceramente, Krieger acabou com sua própria música, sendo muito ruim sua participação. Ponto final. No lado B do single "Do it" com algumas inovações durante a execução, mas que nada mais são do que fruto do complexo de Lennon/McCartney de Krieger. O single foi lançado em agosto de 1969.

Enquanto isso, fora dos estúdios...
Nesta fase de gravação de "The Soft Parade" o single "Hello, I Love You" estourou na Europa, levando os Doors à sua primeira e única grande turnê internacional, que passou por países como Inglaterra, Alemanha, Holanda, Dinamarca (foto) e Suécia. Foi uma das excursões mais alucinadas da história do Rock, com muitos escândalos promovidos por Jim Morrison, com muito excesso de drogas, mulheres e bebedeiras, levando o vocalista a bater seus próprios recordes de extravagâncias. Em Londres eles se apresentaram no Roundhouse, uma tradicional casa de shows da Inglaterra. Os britânicos definitivamente não estavam preparados para Jim, ele entrou no palco totalmente narcotizado e bêbado, mas mandou ver em um dos melhores shows da banda. Depois o grupo foi para a Alemanha, em Frankfurt e Jim se sentiu em casa. Conhecida como uma das cidades mais sofisticadas da Europa, aqui a banda fez um show que entrou para a história da cidade. Jim terminou a noite em um bar de strip tease da cidade e a imprensa alemã não deixou este fato passar em branco.

Em Amsterdam aconteceu o pior: Jim estava totalmente fora de controle, O Jefferson Airplane abriu o show dos Doors naquela noite, mas no meio de sua apresentação, Jim apareceu no palco, para surpresa de todos, com uma garrafa de whisky na mão, totalmente embriagado, tentando acompanhar o Airplane que totalmente atônico, ficou sem saber o que fazer! Jim continuou dançando ao som da música da banda, num espetáculo trágico e engraçado ao mesmo tempo! Na verdade ele deu um vexame daqueles, na frente de todo mundo! No final ele mal conseguiu deixar o local, de tão chapado que estava, sendo carregado para o hospital mais próximo. Mas nem por isso os Doors deixaram de realizar o show, a banda entrou sem Jim mesmo, pediu desculpas e interpretou todas as canções sozinhos. Jim estava sempre bêbado e drogado e depois confidenciou a um amigo que "Não se lembrava dos shows dos Doors na Europa"!

Essas apresentações viraram um especial para a TV inglesa chamado The Doors Are Open, que mais tarde também foi lançado em vídeo. Antes do lançamento do quarto disco da banda, o orquestrado e exagerado The Soft Parade, ocorreu o que é tido como o começo da queda de Jim Morrison. Dia 1 de março de 1969 é a data do famoso show de Miami, onde Jim, completamente bêbado, foi acusado de exibir seu pênis para a plateia, incitar baderna e proferir discursos obscenos. Ninguém sabe ao certo se tudo isso ocorreu ou não, mas o vocalista foi a julgamento e acabou condenado a seis meses de detenção. Além disso, praticamente todos os shows agendados foram cancelados e a banda se tornou "persona non grata" em todo o território americano.

Enquanto os advogados apelavam da decisão judicial, tentando abrandar a pena do vocalista, aos poucos os shows foram se tornando mais frequentes outra vez, e a banda começou a gravar suas apresentações para o lançamento de um álbum ao vivo. Esse material foi lançado em 1970 como um LP duplo chamado Absolutely Live, que misturava canções já conhecidas com algumas inéditas. Em seguida, mais um de estúdio, batizado com o nome Morrison Hotel. Os que achavam que os Doors haviam entrado em decadência com The Soft Parade encontraram muito vigor no novo trabalho, que deixava as orquestras totalmente de lado para fazer um rock cru e mais blues do que nunca. Mas essa é uma outra história que vamos contar no mês que vem... até lá.

The Doors - The Soft Parade
Existem pessoas que não gostam desse disco dos Doors. Chegam a dizer que é o disco do grupo que menos se parece com sua sonoridade habitual. Ora, esse tipo de mentalidade é bem equivocada. A verdade é que uma banda de rock sempre deve procurar por inovação e não ficar na mesma tecla, álbum após álbum. Assim se esse disco foi inovador na carreira dos Doors, então palmas para eles. A busca por inovação sempre será muito bem-vinda.

O disco abre com uma faixa que até considero bem convencional. Trata-se de "Tell All the People". O único maior diferencial digno de nota é o abrasivo arranjo de metais logo em seu começo. Certamente não era algo que um fã dos Doors estava esperando encontrar. Porém tirando esse pequeno detalhe tudo o mais parece bem de acordo com o tipo de música da banda em seus álbuns anteriores.

Jim Morrison não gostou muito dessa letra que foi escrita totalmente pelo guitarrista Robbie Krieger. Aliás a música é inteiramente dele, desde sua letra, até sua melodia. Morrison, como já era óbvio naquela fase da carreira, preferia mesmo cantar seu próprio material. A maioria de suas músicas apenas adaptavam sua poesia. Era uma poesia cantada. De qualquer forma como Jim gostava muito de Robbie, ele procurou dar o melhor de si na gravação, em sua performance vocal. E ficou muito bom, temos que reconhecer.

A canção inclusive foi escolhida para ser lançada depois também como single, o terceiro extraído das faixas do disco. Não fez muito sucesso, é verdade, ficando apenas na posição 57, mas de qualquer forma foi um espaço a mais dentro da discografia dos Doors para o trabalho composto por Krieger, que era um músico talentoso, mas também uma pessoa bem tímida, que nunca procurava se impor aos demais membros do grupo.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

The Doors - Waiting for the Sun

The Doors - Waiting for the Sun 
Gravado em oito canais entre os meses de fevereiro e maio de 1968, no T.T.G. Studios (Hollywood, CA). Lançado oficialmente nos EUA no dia 12 de julho de 1968. Produzido por Paul A. Rothchild. O terceiro disco dos Doors, Waiting for the Sun, é considerado como sendo o trabalho mais comercial da banda. Talvez injustamente: se por um lado contém canções extremamente radiofônicas, como o grande sucesso Hello, I Love You e a simpática Love Street, por outro possui algumas bem estranhas, como a valsa Wintertime Love, a flamenca Spanish Caravan, a rebelde Five to One e a insana Not to Touch the Earth.

Essa última foi uma das únicas sobreviventes da ideia original que a banda tinha para o álbum, que iria se chamar The Celebration of the Lizard, uma longa composição com diversas melodias diferentes que ocuparia por completo um dos lados do LP. Quando viram que isso seria inviável, tiraram do baú algumas velhas músicas de começo de carreira (várias delas já haviam aparecido na demo de 65 e depois foram esquecidas) e rebatizaram o disco de American Nights. E depois trocaram mais uma vez, para o definitivo Waiting for the Sun. Mesmo ficando de fora do disco, The Celebration of the Lizard teve sua letra publicada no encarte e foi gravada, ao vivo, anos mais tarde, no Absolutely Live.

Vale ressaltar que a música Waiting for the Sun, uma das mais conhecidas da banda, não é desse disco, e sim do Morrison Hotel, de 1970. Jim Morrison começou a ser chamado de Rei Lagarto com o lançamento de Waiting for the Sun, em 68. Isso porque na faixa "Not to Touch the Earth" ele cantava os seguintes versos: "I'm the Lizard King / I can do anything" ("sou o Rei Lagarto/ posso fazer qualquer coisa"). O disco é o mais "paz e amor" da banda, trazendo três músicas com "love" já no título e uma protestando contra a Guerra do Vietnã. Além de ter sido mais um sucesso nos EUA, o álbum e o single Hello, I Love You estouraram na Europa, levando os Doors à sua primeira e única grande turnê, que passou por países como Inglaterra, Alemanha, Holanda, Dinamarca e Suécia.

Essas apresentações viraram um especial para a TV inglesa chamado The Doors Are Open, que mais tarde também foi lançado em vídeo. Talvez por ter sido uma verdadeira "colcha de retalhos", o disco demonstre ao longo de sua duração uma falta de coesão harmônica e contextual. São nítidas as diferenças entre as várias faixas, principalmente no tocante a arranjos e execução. Algumas foram retocadas quase à perfeição enquanto outros trazem um indisfarçável toque de descuido e indiferença por parte do grupo. Enfim, é um trabalho irregular, com altos e baixos visíveis, o que acaba contando contra no balanço geral da avaliação do conjunto da obra. "Waiting For The Sun" pode ser considerado o menos inspirado LP dos Doors, o mais frágil e o menos destacado do conjunto. Além do desnível presente em todas as canções, "Waiting For The Sun" sofre de uma série crise de identidade, não se posicionando definitivamente entre o puro comercial ou a mais nobre arte, no mais estrito significado da palavra. Fica assim em cima do muro, sem ir para qualquer lado, o que o torna um trabalho intrinsecamente contraditório e irregular. Em suma: "Waiting For The Sun" é uma obra menor dentro da discografia da banda.

Single nas lojas:
The Unknown Soldier / We Could Be So Good Together - Sei que todos vão querer me matar depois dessa nota, mas... Apesar de todo o seu valor social e político, de ir contra a guerra do Vietnã e etc, a canção The Unknown Soldier é muito fraca musicalmente! Poderia até ser interessante ver a performance do grupo no palco e tal, mas simplesmente a ouvindo você percebe nitidamente toda a sua falta de estrutura harmônica e rítmica. Muito ruim mesmo. Talvez tenha sido de propósito, não sei, mas que a canção é muito abaixo do nível da banda, isso ela é. Sem dúvida. Já no lado B "We Could Be So Good Together" é um pouco melhor, mas também não salva o single do título de "Pior single da história dos Doors". Fico pensando: Porque não lançaram "Five to One", essa sim uma grande música do disco, e resolveram colocar essa dobradinha inconsistente? Pode passar direto, as duas são totalmente descartáveis, indo direto para a lata de lixo da história! Lançado em março de 1968.

Hello, I Love You / Love Street - Se o single anterior é um desastre, esse por sua vez é ótimo (não disse que 'waiting for the sun' é um trabalho irregular!). Pois bem, "Hello, I love You" é uma bela melodia, feita para tocar nas rádios, assim como "Love Street", essa mais comercial do que nunca. Essa aliás foi uma das primeiras composições de Jim Morrison, feita em homenagem ao amor de sua vida, Pamela. Mas há controvérsias, esse não é um fato incontestável, pois alguns autores afirmam que Jim a fez ainda quando era um simples colegial, muitos anos antes de conhecer Pamela. Pela simplicidade da letra e o ritmo bem anos 60 (pré 64) pode-se até afirmar que isso seja verdade. De qualquer forma, ponto para os Doors e Jim Morrison. O segundo single de "Waiting for the Sun" foi lançado nos Estados Unidos em junho de 1968.

Pablo Aluísio.

Disco de Vinil: The Doors - Waiting for the Sun 
Waiting for the Sun, terceiro álbum de estúdio do The Doors, foi lançado em julho de 1968 e marcou uma fase de transição na carreira da banda. Diferentemente dos dois discos anteriores, mais sombrios e centrados no blues psicodélico, o novo trabalho apresentou um repertório mais variado e acessível, com canções de estrutura mais direta. Curiosamente, apesar do título, a música “Waiting for the Sun” só seria gravada anos depois, no álbum Morrison Hotel (1970).

Do ponto de vista comercial, o álbum foi o maior sucesso de vendas do grupo durante sua existência. Waiting for the Sun alcançou o 1º lugar na parada da Billboard 200, tornando-se o único disco dos Doors a liderar o ranking nos Estados Unidos. O single “Hello, I Love You” também chegou ao topo das paradas, ampliando o alcance da banda junto ao público mainstream. Em poucos meses, o álbum vendeu milhões de cópias, consolidando o The Doors como um dos principais nomes do rock americano do final dos anos 1960.

A recepção crítica, no entanto, foi mais dividida do que nos lançamentos anteriores. Alguns críticos da época elogiaram a ambição lírica de Jim Morrison, especialmente em faixas como “Not to Touch the Earth”, extraída da suíte poética Celebration of the Lizard. Outros apontaram que o disco soava menos coeso e mais contido do que The Doors (1967) e Strange Days (1967), sugerindo que a banda estava suavizando seu som para alcançar um público maior.

Revistas musicais e jornais norte-americanos destacaram essa mudança de abordagem. Parte da imprensa observou que o grupo parecia dividido entre o impulso experimental e a necessidade de criar sucessos radiofônicos. Ainda assim, muitos reconheceram a força das composições e o carisma de Morrison, que continuava a se afirmar como uma figura singular no rock, combinando poesia, provocação e presença de palco magnética.

Com o passar do tempo, Waiting for the Sun passou a ser reavaliado de forma mais positiva. Hoje, o álbum é visto como um registro importante da evolução artística dos Doors, refletindo as tensões criativas internas da banda e o contexto turbulento de 1968. Embora não seja unanimemente considerado seu melhor trabalho, permanece como um dos discos mais influentes e comercialmente bem-sucedidos da trajetória do grupo.

The Doors: Discografia Oficial - Estados Unidos



1. The Doors
2. Strange Days
3. Waiting for the Sun
4. The Soft Parade
5. Morrison Hotel
6. L.A. Woman

Pesquisa: Pablo Aluísio. 

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

The Doors - Strange Days

The Doors - Strange Days
Gravado em oito canais no mês de agosto de 1967, no Sunset Sound Studios #1 (Hollywood, CA). Lançado oficialmente nos EUA no dia 25 de setembro de 1967. Produzido por Paul A. Rothchild. No mesmo ano em que haviam invadido os EUA com seu primeiro disco e com o single de grande sucesso Light My Fire, os Doors prepararam seu segundo trabalho, Strange Days. Dessa vez, contaram com equipamentos de alta tecnologia (para a época) e puderam realizar uma das primeiras gravações da história feitas a oito canais de áudio. Mesmo não tendo conseguido atingir o mesmo impacto que o disco The Doors causou na mídia, lançou canções de sucesso popular (People Are Strange e Love Me Two Times) e vários clássicos da banda (principalmente When the Music's Over), além de faixas pouco conhecidas, como You're Lost Little Girl e I Cant See Your Face In My Mind, que podem facilmente entrar na lista das melhores do grupo.

Apesar de manter o mesmo estilo que havia sido consagrado no disco de estreia, Strange Days tem menos influências de blues que seu antecessor, dando mais ênfase ao lado sombrio das composições, os "dias estranhos" do título e da capa. Mas, passando por cima de todos esses detalhes, "Strange Days" foi ganhando status ao longo do tempo e hoje é considerado pelos especialistas como o melhor disco da banda. O trabalho mais artístico dos Doors, sem dúvida. Começando pela capa, em estilo nitidamente europeu, pelo som que se tornou único dentro da história do conjunto e pelo conteúdo das letras, que ficaram mais elaboradas do que nunca. Jim considerava "Strange Days" o ponto alto da discografia do quarteto, tanto que sempre o utilizava como paradigma em relação aos outros discos. A ideia da capa circense, inclusive, foi sugestão do próprio cantor que não queria aparecer novamente ao lado de seus colegas de banda, como ocorreu no disco de estreia. Mas a ideia do circo europeu com malabaristas, artistas e cartomantes, foi na verdade a segunda ideia de Jim. A primeira? Morrison queria que os Doors fossem cercados por trinta cães. Quando perguntado de onde ele tinha tirado uma ideia tão surreal, Jim respondeu que tudo seria uma metáfora, pois cão (dog) é o inverso de Deus (God)! Vai entender...

Singles nas lojas:

People Are Strange / Unhappy Girl - Em Setembro de 1967 os Doors lançaram este primeiro single extraído de "Strange Days". O Lado A é o ponto forte com uma canção que entraria definitivamente na história do grupo. Na realidade "People Are Strange" já havia sido composta há muito tempo, antes mesmo até do grupo se formar. Só ficou fora do disco de estreia por pura falta de espaço. Melhor assim. Aqui ele ganhou o veículo perfeito para sair das trevas dos arquivos dos Doors. A canção do Lado B não acompanha o alto nível artístico do lado A. Mas também não faz feio. Cumpre tabela.

Love Me Two Times / Moonlight Drive - Dois meses depois do primeiro single chegar nas lojas, em novembro de 1967, os Doors invadem novamente as lojas com esse segundo single. A ordem das músicas deveria ter sido invertida, porque sem dúvida, "Moonlight Drive" é bem superior que "Love Me Two Times", essa apenas uma música feita para tocar nas rádios. De certa forma o tempo fez justiça, pois "Moonlight Drive" é uma das mais conhecidas músicas dos Doors e sua parceira de single caiu na vala comum do anonimato. Com um lado excepcional e o outro apenas regular, esse single leva uma nota sete por seu valor musical e passa por média.

Strange Days
E então chegamos em "Strange Days", um dos álbuns mais marcantes do grupo. Foi o segundo dos Doors no selo Elektra Records. Também foi um dos mais esperados, por causa da grande repercussão do primeiro disco. Jim Morrison deu esse título ao álbum porque em sua opinião aqueles dias em que os Doors começaram a fazer sucesso foram dias estranhos. Afinal em poucas semanas Jim passou de um perfeito estranho que perambulava pela Venice Beach a um superstar internacional. Eram dias loucos em sua opinião.

Foi também uma mudança de conceito da banda, a começar pela capa. Jim não havia gostado da capa do primeiro disco. Para ele era algo vulgar demais colocar apenas a foto dos membros do conjunto. Por isso ele mandou que se fizesse algo mais artístico, diria até circense. Para a sorte dos Doors um grupo de artistas de circo foram encontrados nos arredores de Los Angeles. São eles que estão na capa do disco, em poses de picadeiro. Também eram bem representativos desse mundo, com o homem de super força, o anão e a cartomante. Além é claro do malabarista. Tudo o que Jim queria!

"Strange Days" foi muito bem recebido pela crítica. Os Doors que não se enquadravam em estilo nenhum, davam mais um passo rumo a uma identidade musical bem própria. Além disso Jim ainda era jovem e seu apelo sexual junto às fãs mais jovens garantia shows lotados, concertos com ingressos esgotados e bons números de vendas de cópias de seus discos nas lojas. Tudo correndo muito bem para eles naquela fase de sua carreira. Os monstros interiores de Morrison ainda não tinham se revelado para o público.

Pablo Aluísio

sábado, 24 de maio de 2025

The Doors - The Doors (1967)

The Doors (1967) - Gravado em quatro canais no mês de agosto de 1966, no Sunset Sound Studios #1 (em Hollywood, CA), lançado oficialmente nos EUA no dia 4 de janeiro de 1967 e produzido por Paul A. Rothchil. Com o estouro de Light My Fire em todo os EUA, o produtor Paul Rothchild, um dos mais conceituados profissionais da Elektra Records, costumava dizer que criou um sucesso em apenas uma semana. E foi isso mesmo. Assim que assinaram com a gravadora, no final de 66, os Doors logo entraram em estúdio e em meros seis dias (com um fim de semana de intervalo) gravaram seu disco de estreia. As músicas escolhidas já faziam parte do repertório que a banda vinha tocando em bares na Califórnia durante um ano inteiro, alternando-se entre composições de autoria própria (apesar de serem todas compostas por Morrison e Krieger, a banda inteira levava o crédito no encarte) e covers (Alabama Song, de Kurt Weill e Bertold Brecht, e Back Door Man, de Willie Dixon).

A sonoridade pode ser descrita como um blues urbano e sombrio, misturando influências da música negra e de elementos totalmente novos no mundo da música pop. Sucesso de público (transformou-se logo em disco de ouro) e muito elogiado pela crítica, o álbum se tornou um dos maiores clássicos da história do rock e colocou Jim Morrison e os Doors entre os maiores ícones pop do século. Este é o primeiro disco da carreira dos Doors. O normal é que todo disco de estreia de qualquer grupo seja pouco ousado, em que os músicos ainda estejam procurando seu próprio caminho, em suma o normal é que o disco de lançamento de qualquer grupo iniciante seja produto de uma fase de experimentação, de inexperiência. Esqueça isso em relação aos Doors. Que banda de Rock coloca uma música como "The End" logo de cara em seu debut musical? Até os Beatles levaram um tempo para deixar a fase "menudos dos anos 60". Sö evoluíram depois, quando deixaram as "musiquinhas idiotas de amor" (como o próprio Lennon se referia, quando falava da primeira fase do conjunto).

Com os Doors isso não aconteceu, eles já começaram detonando meio mundo, colocando por terra qualquer conformismo ou lugar comum melódico. O disco é uma tijolada no cenário rock da época. Um crítico disse que "Gosto dos demais grupos porque entendo o que eles dizem, com os Doors isso não acontece, quem pode entender o que Jim está querendo transmitir?" Pois é, sem dúvida Jim e banda era por demais avançado para a época, e o mais importante eles colocaram as cabecinhas ocas das adolescentes que gritavam pelos Beatles para funcionar! O negócio de Jim era esse: "Pense". Eles surgiram no momento em que os Estados Unidos e o mundo já haviam perdido a inocência. A guerra do Vietnã estava no ar e os Doors eram ouvidos no sudeste asiático pelas tropas americanas aquarteladas no fim do mundo. "Os Doors foram a trilha sonora do Vietnã" disse depois o diretor Oliver Stone. Talvez por isso a guerra tenha ido pelo ralo.

Os Doors fazem pensar, o que definitivamente está fora de cogitação para os militares, que querem que seus soldados sejam simples máquinas idiotas de matar. Então o grupo veio e rompeu com tudo, inclusive com a pasmaceira reinante. Em suma, os Doors foram definitivamente (desculpe a referência por demais óbvia) aqueles que arrombaram as portas da caretice e do marasmo musical do final dos anos 60, que trouxeram novos valores ao asséptico mundo WASP dos EUA. Os Doors cresceram rápido, até porque eles não teriam tempo! Em apenas cinco anos o grupo jogou para o alto qualquer mesmice musical. Fico imaginando em que grupo eles teriam se transformado se tivessem pelo menos mais 10 anos de carreira pela frente. Teriam tirado os Beatles do trono de "banda mais importante da história do rock" ou teriam se tornados "vovôs ridículos posando de adolescentes imaturos" como os Rolling Stones? Esqueça. Filosofia é para Jim Morrison. Não cometerei nenhuma heresia em um site feito para homenagear "A mais inteligente banda de rock da história", o que já é um respeitável título.

 
Singles nas Lojas:

Break On Through (To The Other Side) / End Of The Night: Misture filosofia francesa, pitadas de existencialismo, culto à morte, alucinações psicodélicas e o que você tem? Ora, o primeiro single dos Doors, um dos mais revolucionários e transgressores da história do rock americano. Você só tem a noção exata da singularidade deste single se ouvir outras bandas e artistas americanos da época. Tente comparar essa música com The Mamas and The Papas, por exemplo. São dois mundos completamente diferentes, Jim e os caras da banda parecem ter chegado de Marte! A distância da essência dos Doors e de outros grupos é abissal. Não dá para comparar. Por isso houve tanto rebuliço nos States. Jim literalmente rompeu com o cenário musical da época e fez algo totalmente novo. Por isso tentar classificar e enquadrar o grupo em alguma tendência é bobagem, simplesmente são únicos, sem ninguém parecido por perto. Jim foi nessas canções o que John Lennon gostaria de ter sido, se tivesse uma formação educacional mais sólida, porque ninguém mistura tantas coisas diferentes e relevantes em um só caldo e se sai bem. Tem que ter embasamento intelectual e isso o rei lagarto tinha de sobra. As músicas? Nem vou comentar, tire suas próprias conclusões. Esse aliás sempre foi o recado por trás das músicas dos Doors: "Pense por si mesmo".

Light My Fire / The Crystal Ship: Um dos grandes sucessos da carreira dos Doors, senão o maior. Primeiro houve muita surpresa por parte das rádios americanas pela duração da música. Nos anos 60 uma canção tinha que ter no máximo três minutos e aí chega os Doors e chutam o balde, lançando uma que durava a eternidade (mais de 7 minutos!). Como tocar um troço desses? Mas não teve jeito, eles tiveram que se curvar e colocar a versão completa nos dials. O produtor do grupo ainda fez uma versão menor (abominada por Jim) para que as estações mais comerciais (e mais idiotas) pudessem tocar o sucesso dos Doors. Depois o sacrilégio: Atrás de uma grana fácil os três (fora Jim) venderam os direitos de "Light My Fire" para tocar como jingle no lançamento de um novo carro, o Buick. Jim, é claro, ficou puto da vida e detonou uma TV nos estúdios quando soube! (Essa cena está presente no filme de Oliver Stone). O conjunto estava se tornando justamente aquilo que Jim mais odiava: mero produto descartável da indústria automobilística. Que droga! Bad Trip!

Pablo Aluísio